Compreender é Fundir Horizontes: Por Que Aprender uma Língua Muda Quem Você É

Sobre o motivo pelo qual não se entende outra língua da varanda segura da própria sala de estar, e o que Gadamer quis dizer ao afirmar que compreender é, sempre, deixar-se transformar.

Dois dedos de Filosofia da Linguagem

Tempo estimado de leitura: 7 minutos


Existe um jeito muito comum e revelador do adulto falar sobre aprender idiomas. Ele diz que vai dominar o inglês, conquistar o espanhol, atacar o alemão. O vocabulário é de campanha militar, e por baixo dele mora uma suposição tranquilizadora: a de que se pode tomar posse de uma língua como quem anexa um território, saindo da operação exatamente a mesma pessoa que entrou, só que agora de posse de um novo bem. Aprende-se a língua, guarda-se a língua, e o eu que a guardou permanece intacto. Um filósofo alemão dedicou sua obra maior a mostrar por que essa imagem é falsa e por que compreender qualquer coisa, uma língua inclusive, é um processo que nos altera no caminho.

Gadamer: compreender não é um método, é um acontecimento

Hans-Georg Gadamer, em “Verdade e Método”, de 1960, fez uma pergunta que parece simples e abre um abismo: o que de fato acontece quando compreendemos alguma coisa? A resposta usual é que aplicamos um método, um procedimento neutro que extrai o sentido do objeto sem nos envolver. Gadamer discorda. Para ele, compreender não é algo que fazemos à distância, controlando; é algo que nos acontece, em que estamos dentro, implicados. E, de forma provocadora, ele reabilita uma palavra que o pensamento moderno havia transformado em xingamento: o preconceito. Não no sentido de intolerância, mas no sentido literal de pré-juízo, de tudo aquilo que já pensamos e somos antes de encontrar o novo. Esses pré-juízos não são o obstáculo à compreensão; são a condição dela. Ninguém entende a partir do nada. Entendemos sempre a partir de onde estamos, com a bagagem que trouxemos.

Para o aprendiz, isso é uma libertação inesperada. A sua língua materna, a sua cultura, o seu modo já formado de ver as coisas não são o lixo que você precisa apagar para aprender o novo; são o ponto de partida inevitável e legítimo de onde você vai ao encontro da língua estrangeira. Você não chega zerado e não deveria querer chegar.

A fusão de horizontes

O conceito central de Gadamer é uma imagem difícil de esquecer: a fusão de horizontes. Cada um de nós enxerga o mundo a partir de um horizonte, o alcance de visão que a nossa história, a nossa língua e a nossa cultura nos deram. Compreender algo verdadeiramente diferente, um texto antigo, uma pessoa de outra época, uma língua estrangeira, não é abandonar o próprio horizonte e saltar para dentro do alheio, coisa impossível, nem é arrastar o outro para dentro do nosso e domesticá-lo. É algo mais fértil: os dois horizontes se encontram e se fundem num terceiro, mais amplo que qualquer um dos dois tomados sozinhos.

Repare que essa fusão não é assimilação nem meio-termo nem perda de si. É transformação. No diálogo genuíno, dizia Gadamer, cada parte corre o risco de mudar, e o resultado não é que um venceu o outro, mas que surgiu uma perspectiva nova, partilhada, que antes não existia em nenhum dos lados. Aplicada ao estudo de idiomas, a imagem é exata. Quem aprende a sério uma segunda língua não acrescenta um cômodo fechado à casa que já era; vê o próprio horizonte se alargar, e passa a enxergar inclusive a língua materna de um ponto mais alto, porque agora tem com que compará-la.

O ser que pode ser compreendido é linguagem

Gadamer condensou sua visão numa frase célebre e vertiginosa: o ser que pode ser compreendido é linguagem. Ele não quis dizer que tudo se reduz a palavras, e ele mesmo reconhecia o que há de inefável na experiência. Quis dizer que a linguagem não é um instrumento neutro que usamos para transmitir pensamentos já prontos, e sim o próprio meio dentro do qual o sentido vem a existir e no qual todo entendimento acontece. Compreendemos o mundo linguisticamente e, por isso, cada língua é um modo do mundo se tornar compreensível.

Daí a consequência que mais interessa a quem aprende. Se é na linguagem que a compreensão acontece, então aprender outra língua não é ganhar um segundo canal para dizer as mesmas coisas; é ganhar um segundo meio dentro do qual o mundo se torna inteligível de outra maneira. É por isso que mudar de língua, para quem a habita de verdade, se parece tanto com mudar de ponto de vista sobre a existência, e não apenas de código.

A aplicação: estudar como quem dialoga, não como quem conquista

Se compreender é fundir horizontes, o aprendiz precisa trocar a postura de conquistador pela de interlocutor. Não se domina uma língua; dialoga-se com ela até que ela nos mude. Na prática, isso significa aceitar o desconforto produtivo de ser, por um tempo, alguém que ainda não entende, porque é justamente esse encontro com o que resiste à nossa compreensão que empurra o nosso horizonte para fora. O estudante que exige entender tudo de imediato, nos seus próprios termos, recusa a fusão e permanece trancado no horizonte com que chegou.

Três disposições ajudam. A primeira é tratar o que soa estranho na outra língua não como defeito dela, mas como a borda do seu próprio horizonte ficando visível, sinal de que há mundo além do que você via. A segunda é mergulhar nos materiais que oferecem resistência real, textos, filmes e conversas de nativos, em vez de ficar só no conteúdo adaptado que devolve sempre o já conhecido. A terceira é aceitar que, ao final, você não será o mesmo, e que isso é o prêmio, não o preço. Já explorei noutro texto desta série como uma nova língua funciona quase como um novo órgão de percepção; Gadamer dá a esse órgão o seu nome filosófico, horizonte, e mostra que ampliá-lo é a própria definição de compreender.

Fechamento

Quem fala em conquistar um idioma quer o troféu sem a travessia, a posse sem a transformação. Gadamer ensina que não funciona assim, porque compreender nunca foi tomar algo de fora mantendo-se intacto, e sim deixar que o encontro com o diferente alargue o horizonte de onde se vê. Aprender uma língua, levado a sério, é um desses encontros que não devolvem a mesma pessoa que os iniciou. Você entra querendo possuir a língua e descobre, ao final, que foi ela que, gentilmente, expandiu você.


  • Hans-Georg Gadamer, “Verdade e Método” (1960), sobre a fusão de horizontes e a linguagem como meio da compreensão;
  • Routledge, “Philosophy of Language: A Contemporary Introduction”.
  • Lucas Matias, “Persona Linguística”: conceito autoral da série.

Filosofia da Linguagem — projeto Shabbat. Textos para este blog e incentivo à aprendizagem e à aquisição de idiomas de forma ativa

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