O Signo Não é um Código: O Que Peirce Ensina a Quem Traduz Tudo na Cabeça

Sobre o motivo pelo qual traduzir cada frase mentalmente mantém você para sempre do lado de fora de um idioma, e o que a semiótica descobriu quando parou de tratar a palavra como uma senha a ser decifrada.

Dois dedos de Filosofia da Linguagem


Há um gesto mental que quase todo estudante repete sem perceber, e que funciona como uma âncora invisível prendendo-o ao fundo. Ele ouve uma frase em inglês, converte para o português por dentro, entende o português, formula a resposta em português, converte de volta para o inglês e só então fala. Entre o mundo e a sua boca existe sempre uma alfândega, um posto de tradução que revista cada palavra antes de deixá-la passar. O estudante acha que isso é apenas lentidão de iniciante, que some com a prática. Em parte some, mas a raiz do problema não é velocidade, é uma teoria errada sobre o que é uma palavra, e vale a pena ir buscá-la onde ela foi mais bem desmontada.

Saussure e a ilusão do código de duas pontas

A imagem que sustenta o tradutor mental vem, sem que ele saiba, de uma certa leitura de Ferdinand de Saussure. Saussure descreveu o signo linguístico como a união de duas faces, o significante, que é a imagem sonora da palavra, e o significado, que é o conceito que ela evoca. É um modelo de duas pontas, fechado sobre si mesmo, e dele nasce facilmente a ideia de que aprender uma língua seria trocar significantes mantendo os significados fixos. Se o conceito de casa é o mesmo para todos, então basta trocar a etiqueta sonora, e house passa a ativar aquilo que casa ativava. A língua, nessa leitura, vira um código, e aprender vira decodificar.

O problema é que essa imagem de duas pontas deixa de fora exatamente o que mais importa no aprendizado: o intérprete vivo que está no meio, e o fato de que o sentido não está guardado na palavra, mas acontece em quem a recebe.

Peirce e a tríade que muda tudo

O filósofo americano Charles Sanders Peirce, mais ou menos na mesma época, propôs um modelo diferente, e é dele que o estudante precisa. Para Peirce, todo signo tem três pontas, não duas. Existe o signo propriamente dito, existe o objeto ao qual ele se refere, e existe um terceiro elemento decisivo, que ele chamou de interpretante: o efeito que o signo produz na mente de quem o interpreta, o novo signo que nasce dentro de você quando você compreende. O sentido não está trancado dentro da palavra à espera de ser aberto; ele se produz no ato de interpretar, e cada interpretação gera outra, num processo que Peirce chamou de semiose, e que em princípio não tem fim.

Peirce ainda distinguiu três modos pelos quais um signo se liga ao que representa. O ícone se liga por semelhança, como um desenho ou uma onomatopeia. O índice se liga por conexão real, como a fumaça que aponta o fogo ou o dedo que aponta o objeto. E o símbolo se liga por convenção, por hábito compartilhado, e é a essa categoria que pertence quase toda palavra de qualquer língua. Guarde essa palavra, hábito, porque nela está a chave.

O sentido é um hábito, não uma senha

O que faz uma palavra significar algo, para Peirce, não é um decreto guardado no dicionário, é um hábito de interpretação instalado em quem a usa. Compreender de imediato a palavra bread sem passar por pão é ter desenvolvido o hábito de, diante daquele signo, produzir diretamente o interpretante certo, o cheiro, a textura, a cena da padaria, tudo aquilo sem escala no português. Enquanto o estudante traduz, ele não desenvolveu esse hábito ainda; ele está tomando emprestado o interpretante da língua materna, alugando o sentido em vez de produzi-lo. É por isso que ele entende e mesmo assim não pertence: falta-lhe a semiose própria daquela língua, a cadeia de interpretantes que dispara sem passar pela alfândega.

Aqui está a diferença prática entre as duas teorias. Se aprender fosse decodificar, como sugere o modelo de duas pontas, então o tradutor mental seria o método correto, apenas lento. Mas se aprender é instalar hábitos de interpretação, como mostra Peirce, então traduzir mentalmente é contraproducente, porque toda vez que você faz a escala pelo português você reforça o hábito antigo e adia o novo. O caminho que parece seguro é justamente o que perpetua a dependência.

A aplicação: deixar o interpretante crescer

O famoso conselho de pensar na língua, que soa vago e quase místico quando dado sem explicação, ganha aqui um sentido técnico e concreto. Pensar na língua é permitir que o interpretante se forme diretamente, sem intermediário. E isso não se conquista por esforço de vontade, dizendo a si mesmo pare de traduzir, mas por exposição repetida ao signo dentro de situações reais, até que o hábito se instale sozinho, do mesmo modo que a criança nunca traduziu e ainda assim aprendeu.

Na prática, três atitudes aceleram essa passagem. A primeira é encontrar as palavras em cena, em histórias e diálogos, e não em listas, porque o interpretante rico nasce da situação, não da definição isolada. A segunda é tolerar a compreensão aproximada, resistir à ânsia de correr ao dicionário a cada palavra nova, porque é da tentativa de interpretar sozinho, mesmo errando um pouco, que o hábito começa a se formar; o dicionário consultado cedo demais interrompe justo a semiose que precisaria acontecer. A terceira é conviver com a língua a ponto de reagir a ela antes de analisá-la, rindo de uma piada antes de conseguir explicá-la, sentindo uma frase como estranha antes de saber apontar a regra que ela quebrou. Esses são os sinais de que os interpretantes já estão nascendo do lado de dentro.

Fechamento

O estudante preso à sua alfândega mental imagina que a fluência virá quando ele traduzir mais rápido. Peirce mostra que ela virá quando ele parar de traduzir, quando o signo estrangeiro passar a gerar sentido diretamente dentro dele, sem escala e sem intérprete. Uma língua não é um código a ser decifrado de fora, é um sistema de hábitos a ser incorporado por dentro, e a diferença entre saber sobre um idioma e habitá-lo é toda ela a diferença entre decodificar um signo e deixar que ele, enfim, signifique em você.


  • Charles Sanders Peirce, “Semiótica” (Collected Papers);
  • Ferdinand de Saussure, “Curso de Linguística Geral”;
  • Routledge, “Philosophy of Language: A Contemporary Introduction”.

Filosofia da Linguagem — projeto Shabbat. Textos para este blog e incentivo à aprendizagem e à aquisição de idiomas de forma ativa.

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