A Língua que Sente Emoção, Juízo e Coragem

Sobre o motivo pelo qual dizer “eu te amo” numa língua nova é mais difícil do que conjugar qualquer verbo irregular, e o que Aristóteles já explicava sobre isso muito antes de existir aula de idiomas.


O travamento que a gramática não explica

Há um momento, quase sempre o mesmo, em que o estudante avançado de um idioma tropeça de um jeito que surpreende até ele próprio. Domina os tempos verbais, entende notícias, discute política com fluência razoável e, então, alguém pergunta como ele se sente, ou ele precisa consolar um amigo, fazer uma piada fina, brigar de verdade com alguém que ama. E trava. Não porque falte vocabulário técnico para o assunto; falta outra coisa, mais funda, que nenhuma lista de palavras resolve. O aluno sabe nomear uma mesa, uma reunião, um contrato, e ainda assim gagueja diante do próprio coração.

Esse travamento costuma ser lido como timidez ou insegurança e, em parte, é isso mesmo. Mas há embaixo dele um problema filosófico preciso, que a tradição ocidental já havia identificado muito antes de qualquer aplicativo de conjugação: sentir não é um evento bruto que a linguagem apenas descreve depois; sentir já é, em boa medida, um ato de juízo, e o juízo se faz com os conceitos que a língua nos entrega. Aprender a sentir numa língua nova, portanto, não é traduzir emoções prontas; é adquirir a capacidade de julgar de um jeito que antes não se tinha.

Aristóteles: a emoção como krisis

No segundo livro da Retórica, Aristóteles trata a cólera, o medo, a piedade e a vergonha não como reações cegas do corpo, mas como estados que dependem de crenças. A cólera, define ele, é o desejo de vingança acompanhado de dor, provocado pela impressão de ter sido desprezado injustamente, quando esse desprezo não era merecido. Repare no que essa definição exige: para sentir cólera de verdade, é preciso primeiro julgar que houve desprezo, depois julgar que esse desprezo foi injusto, e só então a dor e o desejo de resposta se acendem. Tire qualquer uma dessas peças de julgamento e a cólera não se sustenta; vira, no máximo, irritação difusa, sem nome, sem direção.

Os estudiosos que se debruçam sobre esse trecho da Retórica costumam chamar esse mecanismo de krisis  (do grego κρίσις), um juízo, uma avaliação que a alma faz da situação antes de a emoção se formar por completo. A emoção, nesse sentido aristotélico, não é o oposto da razão; é uma espécie de raciocínio rápido, carregado de conceitos, e os conceitos são ‘coisa de linguagem’. Quem não tem, numa língua nova, os conceitos finos para nomear o desprezo, a injustiça percebida, a saudade, o orgulho ferido, não está apenas sem vocabulário: está, num sentido real, com o aparelho de sentir ainda incompleto naquele idioma.

Um eco moderno: a emoção como avaliação

O mais notável é que essa intuição antiga reaparece, quase palavra por palavra, na psicologia do século XX. Magda Arnold, ao propor o que ficou conhecido como teoria da avaliação, ou appraisal theory, defendeu que a emoção nasce de uma apreciação imediata da situação como boa ou má para a pessoa, e que só depois dessa apreciação vêm a experiência subjetiva e a resposta corporal. Não é o corpo que decide primeiro e a mente que batiza depois; é o julgamento sobre o que a situação significa para nós, que dispara tudo o mais.

A distância entre Aristóteles e Arnold é de mais de dois mil anos, um Egeu inteiro de história entre os dois, e ainda assim, ambos chegam ao mesmo ponto por estradas independentes: sentir é avaliar, e avaliar é um ato que se apoia em categorias, e categorias vivem dentro da língua que as sustenta. Quando duas tradições tão distantes convergem sozinhas para a mesma verdade, vale a pena levá-la a sério.

A prova está nas palavras que não se traduzem

A confirmação mais concreta dessa tese aparece exatamente onde o estudante de idiomas menos espera: no vocabulário emocional que cada língua construiu e nenhuma outra reproduz de forma exata. O português tem a palavra saudade*, um juízo específico sobre a ausência de algo/alguém amado que se sabe que não voltará como antes. Ou seja, este ser amado estará, de alguma forma, ausente. O alemão tem Schadenfreude, o prazer preciso, ao ver o outro tropeçar. O japonês tem mono no aware, a comoção suave diante da beleza, que, sabe-se, é passageira. O finlandês tem sisu**, uma espécie de teimosia corajosa diante do que parece impossível.

Nenhuma dessas palavras é sinônimo perfeito de nada em outra língua, e essa recusa em traduzir é, ela mesma, o dado filosófico mais importante. Se essas emoções fossem estados universais e a língua apenas as etiquetasse depois, bastaria uma paráfrase para transportá-las inteiras de um idioma a outro. Não basta. Explicar saudade a quem não tem a palavra exige um parágrafo inteiro, e mesmo assim algo escapa. É sinal de que aprender esse vocabulário não é decorar mais uma etiqueta; é adquirir uma nova capacidade de julgar e, com ela, uma nova capacidade de sentir aquilo que, sem a palavra, permaneceria difuso demais para ser sentido com nitidez.

A aplicação: por que o exercício neutro não basta

Disso decorre uma consequência prática que vale mais do que muitos métodos vendidos como revolucionários. Sentir-se numa língua exige adquirir os julgamentos que ela carrega. Então, treinar apenas com frases neutras, do tipo “o livro está sobre a mesa”, ensina estrutura sem ensinar a alma da língua (o que é válido para iniciantes). Stephen Krashen, ao propor o que chamou de filtro afetivo, já apontava para algo próximo: quando a ansiedade é alta e o envolvimento emocional é baixo, a aquisição trava, mesmo com insumo compreensível disponível. A recíproca também vale, e talvez seja a parte mais esquecida da sua teoria: quando o conteúdo mexe de verdade com quem aprende, a história que emociona, a música que dói, a piada que arranca risada genuína, a discussão que faz o sangue subir, a língua entra por um canal mais fundo do que o exercício gramatical jamais alcança.

Aprender vocabulário emocional pedindo listas de “palavras de sentimento” repete, disfarçado, o mesmo erro do “cantor restrito à técnica”: canta muito bem, sem fazer sentir. A alternativa é buscar deliberadamente conteúdo que provoque a emoção de verdade dentro da língua nova, um filme que arranque lágrima, uma letra de música que aperte o peito, uma conversa real em que se discorde com alguém que se estima. É nesse atrito, e só nele, que o aprendiz constrói o juízo emocional fino que Aristóteles descreveu, porque é ali que a palavra nova se solda a uma avaliação vivida, não a uma definição de dicionário.

A virtude: a coragem de sentir mal

Chegamos, por fim, ao que há de mais exigente nesse percurso, e que também é uma virtude no sentido antigo da palavra: a coragem. Não, a coragem de errar um artigo ou trocar um gênero gramatical, que já é difícil o bastante, mas a coragem de se expor emocionalmente com um instrumento ainda tosco nas mãos. Dizer “eu te amo” com sotaque, consolar alguém com uma frase mal construída, discordar com veemência sem ter ainda o repertório fino da ironia ou da delicadeza na língua nova, tudo isso expõe o aprendiz duas vezes: como alguém que ainda erra, e como alguém que sente de verdade diante de outros. É bem mais fácil recuar para o vocabulário técnico, seguro e impessoal, do que arriscar o coração num idioma em que ainda se é criança.

Aristóteles chamava a coragem de meio-termo, entre a covardia e a temeridade, a disposição de enfrentar o que assusta pela razão certa, sem fugir nem se precipitar. Aplicada aqui, essa virtude pede que o estudante aceite soar estranho ao tentar consolar, elogiar, discordar ou amar numa língua que ainda não domina por inteiro, sabendo que é exatamente por esse caminho, e não por outro mais confortável, que o juízo emocional fino da nova língua finalmente se forma. Quem evita esse risco pode até acumular vocabulário técnico impecável e permanecer, ainda assim, emocionalmente mudo naquele idioma para sempre.

Fechamento

A gramática ensina a construir frases corretas; ela não ensina, sozinha, a sentir dentro delas. Isso só se aprende arriscando o coração num terreno onde ainda se tropeça, deixando que histórias, músicas e conversas verdadeiras esculpam, pouco a pouco, os juízos que Aristóteles já via na raiz de toda emoção humana. Cada palavra de sentimento aprendida assim, com risco e não com lista, devolve ao aprendiz algo que nenhuma tradução perfeita poderia entregar: uma nova forma, inteiramente sua, de avaliar o mundo e de ser tocado por ele.

É esse, no fundo, o convite mais alto que a filosofia da linguagem faz a quem estuda um idioma: não apenas aprender a falar de si numa língua nova, mas aprender, com ela, a sentir um pouco mais fundo do que sentia antes.


  • Aristóteles, Retórica, Livro II, conforme discutido em “Em busca da definição de emoção em Aristóteles” e “O papel das emoções na retórica de Aristóteles”;
  • Magda B. Arnold, “The Human Person” e a tradição da teoria da avaliação (appraisal theory) em “Appraisal Theory of Emotion”;
  • Stephen Krashen, “Principles and Practice” (hipótese do filtro afetivo).

Filosofia da Linguagem — projeto Shabbat. Textos para este blog e incentivo à aprendizagem e à aquisição de idiomas de forma ativa.

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