Dizer é Fazer: Por Que Falar uma Língua é Aprender a Agir Nela

Dois dedos de Filosofia da Linguagem

Sobre o motivo pelo qual um estudante pode conjugar todos os verbos e ainda assim não saber pedir um favor, recusar um convite ou pedir desculpas, e o que a filosofia da linguagem descobriu quando parou de tratar a fala como descrição e passou a tratá-la como ato.


O aluno correto que trava na hora de agir

Existe um tipo de aprendiz que confunde qualquer professor. Ele acerta a gramática, tem vocabulário largo, lê textos difíceis e, mesmo assim, produz um efeito estranho nas pessoas com quem fala. Pede as coisas de um jeito que soa ríspido sem querer. Recusa um convite e deixa o outro magoado sem entender por quê. Tenta ser gentil e parece formal demais, ou tenta ser informal e parece atrevido. Nada do que ele diz está errado no sentido do dicionário, e ainda assim quase tudo sai levemente torto, como um terno impecável vestido na hora errada.

O reflexo comum é chamar isso de falta de traquejo, timidez, ou simples inexperiência, e depois seguir adiante corrigindo tempos verbais. Mas embaixo desse desconforto há um problema preciso, e é um problema filosófico antes de ser pedagógico. O aluno aprendeu a dizer coisas sobre o mundo e não aprendeu a fazer coisas no mundo com as palavras. Aprendeu a língua como quem aprende a descrever uma partida de xadrez sem nunca ter movido uma peça. Sabe o nome de tudo e ainda não sabe jogar.

Austin: quando dizer já é fazer

A virada que ilumina esse impasse veio de um filósofo inglês, J. L. Austin, em conferências que se tornaram o livro Como Fazer Coisas com Palavras, dadas em meados do século vinte. Austin começou apontando uma obviedade que ninguém tinha levado a sério: nem toda frase serve para descrever um fato que se possa julgar verdadeiro ou falso. Quando alguém diz “prometo”, num casamento diz “sim, aceito”, num tribunal diz “declaro aberta a sessão”, ou aponta para um navio e diz “batizo este barco de Ana”, essa pessoa não está informando nada sobre a realidade. Está alterando a realidade pelo próprio ato de falar. Antes da frase não havia promessa, casamento, sessão nem batismo; depois dela, há. A palavra não retrata o mundo, ela o modifica.

Austin chamou essas frases de performativas, do verbo inglês to perform, executar, realizar. E percebeu que elas não se avaliam como verdadeiras ou falsas, e sim como bem ou mal-sucedidas. Uma promessa pode fracassar, um batismo pode não pegar, e ele deu a isso o nome quase cômico de infortúnios ou infelicidades, as condições que precisam estar reunidas para que o ato pegue de verdade. Prometer sem intenção de cumprir, casar quem já é casado, declarar aberta uma sessão sem ter autoridade para tanto, tudo isso são maneiras de o ato falhar, não por ser falso, mas por não se realizar. Há uma coreografia invisível de condições em volta de cada frase que age, e quem não conhece a coreografia pisa no pé de todo mundo.

O passo mais fino de Austin veio depois, quando ele percebeu que a fronteira entre descrever e agir não se sustentava. Mesmo a mais neutra das afirmações, “está chovendo”, é também um ato: o ato de afirmar, de assumir um compromisso com aquilo diante de quem ouve. Austin concluiu então que falar é sempre, e não apenas às vezes, executar um ato. Toda frase carrega, além do que diz, uma força, aquilo que se está fazendo ao dizê-la, e ele chamou essa força de dimensão ilocucionária da fala. Perguntar, ordenar, prometer, agradecer, ameaçar, convidar, recusar: cada um é um gesto distinto feito com a boca em vez das mãos.

Searle: as regras que fazem o gesto funcionar

Quem pegou essa intuição e a transformou em sistema foi o filósofo americano John Searle, no livro Atos de Fala. Searle mostrou que cada ato de fala funciona porque obedece a regras, do mesmo modo que um lance de xadrez só é um lance porque existe o jogo que o define. Mover um cavalo fora de uma partida é apenas empurrar madeira sobre um tabuleiro; dentro da partida, é uma jogada com sentido, consequência e risco. Prometer, do mesmo jeito, só é prometer porque há uma convenção partilhada que estabelece o que conta como promessa: que se fale de uma ação futura, que essa ação beneficie o outro, que exista a intenção de se obrigar a cumpri-la. Tire essas condições e a palavra “prometo” vira um som oco.

Searle chegou a organizar os atos de fala em famílias, e vale reter a ideia sem decorar a lista: há atos que afirmam algo sobre o mundo, atos que tentam fazer o outro agir, como o pedido e a ordem, atos que comprometem quem fala com uma ação futura, como a promessa, atos que exprimem um estado de alma, como o agradecimento e o pedido de desculpas, e atos que mudam a realidade institucional pela pura enunciação, como demitir, batizar ou declarar guerra. Falar bem uma língua é transitar por todas essas famílias com desenvoltura. E aqui está o ponto que interessa a quem estuda idiomas: as regras que governam cada uma dessas famílias não são iguais de uma língua para outra. Cada cultura embrulha o mesmo ato num arranjo diferente de condições, tons e rodeios.

Wittgenstein: o significado que só existe em jogo

Por trás de Austin e Searle respira uma ideia mais antiga, que Ludwig Wittgenstein tinha semeado ao afirmar que o significado de uma palavra é o seu uso na linguagem. Wittgenstein comparava a língua a um conjunto de jogos, os jogos de linguagem, cada um com suas regras e sua forma de vida por trás. Pedir, agradecer, saudar, xingar, rezar, brincar, consolar – todos são jogos distintos, e conhecer o significado de uma expressão é saber jogar o jogo em que ela entra, não guardar sua definição numa gaveta mental.

A consequência para o aprendiz é direta e um pouco desconcertante. Uma palavra não se aprende de verdade quando se sabe o que ela quer dizer, e sim quando se sabe o que fazer com ela, diante de quem, em que momento, com qual efeito. Saber que a palavra francesa para “por favor” é s’il vous plaît é saber a etiqueta; saber quando um francês usa a forma cerimoniosa e quando desliza para o registro íntimo, quando um pedido soa cortês e quando soa exigente, isso é saber jogar. E ninguém aprende a jogar lendo o regulamento. Aprende jogando, errando, recebendo a cara torta do interlocutor e recalibrando na jogada seguinte.

A prova está nos atos que não se traduzem sozinhos

A confirmação mais concreta dessa tese aparece exatamente onde o aluno correto tropeça: nos atos de fala que cada língua construiu à sua maneira e que nenhuma tradução literal transporta intacta. Um pedido em inglês costuma vir amortecido por camadas de cortesia interrogativa, do tipo “você se importaria de”, “seria possível”, “por acaso poderia”, ao passo que o mesmo pedido traduzido ao pé da letra para outra língua pode soar rebuscado ou, ao contrário, o imperativo direto que é natural em uma língua pode chegar como grosseria em outra. A escolha entre o tu e o você, entre o tu e o vous francês, entre o du e o Sie alemão, não é um detalhe gramatical: é um ato, a decisão de aproximar ou manter distância, de tratar como igual ou como superior, e o estrangeiro que erra esse botão comunica algo que jamais quis comunicar.

O linguista Dell Hymes deu nome a essa camada quando cunhou a noção de competência comunicativa, argumentando que saber uma língua é muito mais do que produzir frases gramaticais: é saber o que dizer, a quem, quando, de que modo e para quê. Uma criança que só soubesse formar sentenças corretas, sem saber quando calar e quando falar, quando pedir e quando agradecer, seria, nas palavras dele, um monstro social por mais impecável que fosse sua gramática. O aluno que domina a estrutura e ignora essa camada é a versão adulta e educada desse monstrinho: correto e, ainda assim, constantemente fora de tom.

Repare que o obstáculo não é de vocabulário nem de sintaxe. É de ação. O que falta ao aprendiz não são palavras para dizer, são gestos para fazer, e gestos se aprendem por imitação e prática, não por definição. É por isso que tanta gente estuda anos e continua desajeitada no momento de pedir, recusar, elogiar ou discordar na língua nova, enquanto uma criança imersa domina esses atos em poucos meses sem nunca ter aberto uma gramática. A criança não está aprendendo a descrever a língua. Está aprendendo a agir dentro dela.

A aplicação: praticar atos, não frases

Disso decorre uma consequência prática que vale mais do que muita técnica vendida como atalho. Se falar é agir, então treinar apenas com frases neutras e descritivas, do tipo “o carro é vermelho” ou “ela mora em Paris”, ensina a metade descritiva da língua e deixa a metade ativa em silêncio. O aluno sai capaz de comentar o mundo e incapaz de intervir nele. A correção não é estudar mais estrutura, é buscar deliberadamente a língua em ação: diálogos reais em que alguém pede, recusa, negocia, se desculpa, provoca, seduz, consola, e prestar atenção não só no que se diz, mas no que se faz ao dizer, e em que condições aquilo pega ou falha.

Na prática, isso significa preferir histórias e conversas a listas, sim, como já sabe, quem estuda com seriedade, mas com um foco a mais: observar os atos. Como esse personagem faz um pedido delicado? Que rodeio ele usa para discordar sem ofender? Que fórmula pronta a língua oferece para agradecer, para lamentar, para parabenizar? Colecionar atos de fala inteiros, com sua coreografia de condições, rende muito mais do que colecionar palavras avulsas, porque cada ato bem absorvido já traz consigo o quando, o para quem e o como que a palavra sozinha jamais carregaria. Aprende-se a agir agindo, e a única forma de treinar um ato é executá-lo diante de alguém, aceitando que as primeiras tentativas sairão tortas.

A virtude: a coragem de intervir com palavras imperfeitas

Chegamos ao que há de mais exigente nesse percurso e que também é uma virtude no sentido antigo. Descrever é seguro, agir é arriscado. Quem apenas descreve o mundo numa língua nova não se compromete com ninguém; pode errar um artigo e, no máximo, parecer desajeitado. Mas quem age, quem realmente pede, recusa, promete, discorda ou consola, se expõe, porque o ato tem consequência: pode magoar, pode ofender, pode obrigar, pode ser levado a sério. É bem mais confortável ficar na margem descritiva, comentando a língua como quem comenta um jogo pela arquibancada, do que descer ao campo e arriscar uma jogada com os pés ainda inseguros.

A virtude que esse momento pede é a coragem, entendida à moda de Aristóteles como o meio-termo entre a covardia de nunca se arriscar e a temeridade de atropelar toda etiqueta. Aplicada aqui, ela pede que o aprendiz aceite fazer coisas na língua nova antes de dominá-la, que peça um favor sabendo que talvez soe abrupto, que recuse um convite sabendo que talvez magoe, que tente uma piada sabendo que talvez ninguém ria, porque é exatamente executando esses atos, colhendo a reação e ajustando, que a coreografia invisível finalmente se aprende. Quem foge desse risco pode acumular gramática impecável e permanecer, para sempre, um espectador fluente de uma língua na qual nunca chegou a agir.

Fechamento

A gramática ensina a montar frases corretas; ela não ensina, sozinha, a fazer coisas com elas. Austin mostrou que falar é sempre agir, Searle mostrou que cada ato obedece a regras partilhadas que mudam de cultura para cultura, e Wittgenstein lembrou que só se conhece uma palavra quando se sabe jogar o jogo em que ela entra. Os três, por caminhos próprios, apontam para o mesmo lugar: aprender uma língua não é aprender a descrevê-la, é aprender a agir dentro dela, entre pessoas, com consequências reais.

Por isso, o convite mais alto que a filosofia da linguagem faz a quem estuda um idioma não é o de falar sobre coisas numa língua nova, e sim o de finalmente fazer coisas nela: pedir, prometer, agradecer, discordar, amar, com a palavra ainda tosca, mas já capaz de tocar o mundo e mudá-lo um pouco. Porque cada ato que você arrisca numa língua nova, por desajeitado que saia, é a prova de que ela deixou de ser um objeto de estudo e virou, enfim, um instrumento de vida.


  • J. L. Austin, “Como Fazer Coisas com Palavras” (How to Do Things with Words);
  • John R. Searle, “Atos de Fala” (Speech Acts);
  • Ludwig Wittgenstein, “Investigações Filosóficas”;
  • Dell Hymes, sobre competência comunicativa;
  • Panorama do tema em Sylvain Auroux, “A Filosofia da Linguagem”, e William G. Lycan, “Filosofia da Linguagem”.

Filosofia da Linguagem — projeto Shabbat. Textos para este blog e incentivo à aprendizagem e à aquisição de idiomas de forma ativa.

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