O Mundo Cabe na Língua: Por Que Aprender um Idioma Reorganiza a Sua Percepção

Sobre o motivo pelo qual uma língua nova não apenas troca os nomes das coisas, mas recorta o mundo de outro jeito, e o que a ciência cognitiva finalmente comprovou daquilo que os filósofos já suspeitavam.


Quase todo estudante começa um idioma acreditando, sem nunca ter formulado a ideia em voz alta, que aprender é uma operação de substituição. O mundo já estaria pronto, dividido em coisas e conceitos idênticos para toda a humanidade, e cada língua seria apenas um conjunto diferente de etiquetas coladas sobre esses mesmos objetos. Bastaria trocar as etiquetas: onde eu dizia cachorro, passo a dizer dog, e o resto permanece intacto. É uma imagem confortável, porque promete que nada de essencial precisa mudar dentro de quem aprende. E é justamente por ser confortável que atrasa tanta gente, porque o que uma língua faz com o mundo é bem mais radical do que rebatizá-lo.

Humboldt: cada língua desenha um círculo

Wilhelm von Humboldt, no início do século dezenove, já havia percebido que uma língua não é um saco de rótulos, e sim uma maneira inteira de organizar a experiência. Ele cunhou a palavra Weltansicht, visão de mundo, para nomear essa capacidade que cada idioma tem de processar a realidade e recortá-la em conceitos à sua própria maneira. Numa frase que atravessou dois séculos, Humboldt escreveu que cada língua traça um círculo em torno do povo ao qual pertence, e que só se pode sair desse círculo entrando imediatamente no círculo de outra língua. Não se trata de decoração retórica. Trata-se de uma tese precisa: aprender um segundo idioma é a única forma de pisar para fora do próprio círculo, e quem nunca aprendeu nenhum permanece confundindo os limites da sua língua com os limites do mundo.

Repare no que essa imagem faz com a ideia de tradução. Se cada língua desenha um círculo diferente, então nenhuma palavra estrangeira coincide exatamente com a palavra materna que usamos para traduzi-la. Ela cai um pouco ao lado, cobre um território ligeiramente diferente, deixa de fora nuances que a outra inclui. O aprendiz que insiste em achar o equivalente perfeito está procurando algo que a estrutura das línguas não oferece e se frustra por um motivo que não é falha dele, e sim a natureza do objeto.

Sapir, Whorf e a hipótese que exagerou

No século vinte, essa intuição ganhou nome de hipótese e, com ele, tanto prestígio quanto encrenca. Edward Sapir e seu aluno Benjamin Lee Whorf sustentaram que a língua que falamos molda o modo como percebemos e pensamos a realidade, a ponto de Sapir afirmar que o mundo real é, em boa medida, construído de forma inconsciente a partir dos hábitos linguísticos do grupo. Na sua versão mais forte, a chamada hipótese Sapir-Whorf chegou a sugerir que a língua determina o pensamento, que seríamos prisioneiros dela, incapazes de conceber o que nosso idioma não nomeia. Essa versão forte, é preciso dizer com todas as letras, não se sustentou; a pesquisa posterior mostrou que somos perfeitamente capazes de pensar conceitos que nossa língua não tem palavra pronta para exprimir, e que nenhuma língua aprisiona de forma absoluta a mente de quem a fala. Tenho alta confiança nesse ponto; é consenso na área.

O erro de Whorf, porém, foi de dose, não de direção. Ao jogar fora o determinismo exagerado, muitos jogaram fora também a intuição correta que havia por baixo, e é essa intuição correta que a ciência recente reencontrou.

A prova que veio do laboratório

A psicóloga cognitiva Lera Boroditsky retomou a questão com experimentos, e não com filosofia de poltrona, e os resultados são difíceis de ignorar. Falantes de russo, cuja língua obriga a distinguir com palavras separadas o azul-claro, goluboy, do azul-escuro, siniy, são mais rápidos que falantes de inglês para diferenciar tonalidades de azul quando elas cruzam essa fronteira que o russo marca e o inglês não. A distinção que a língua exige treinou o olho a enxergá-la mais depressa.

Há casos ainda mais impressionantes. Na comunidade de Pormpuraaw, na Austrália, a língua kuuk thaayorre não usa esquerda e direita; orienta tudo por pontos cardeais, de modo que se diz algo como a xícara está a sudeste do prato, ou o menino ao sul de Maria é meu irmão. Seus falantes desenvolvem uma espécie de bússola interna permanente, uma orientação espacial que falantes de línguas como a nossa raramente alcançam, porque a gramática deles cobra essa informação a cada frase. E há o efeito do gênero gramatical: alemães e espanhóis descrevem o mesmo objeto com adjetivos diferentes conforme ele seja masculino ou feminino em sua língua, de modo que uma ponte, feminina em alemão e masculina em espanhol, é descrita pelos primeiros como elegante e bela e pelos segundos como forte e robusta. A língua não decide o que a pessoa pode pensar, mas inclina o que ela nota, o que lembra e o que lhe parece natural. É uma versão modesta e bem comprovada daquilo que Whorf, no seu entusiasmo, havia dito “grande demais”.

O que muda para quem aprende

Junte Humboldt e Boroditsky e o conselho prático se impõe sozinho. Se cada idioma recorta o mundo à sua maneira, então aprender de verdade não é traduzir, é reaprender a perceber. O estudante que passa a vida convertendo cada frase estrangeira em português dentro da cabeça está sempre olhando o novo círculo de dentro do velho, e por isso nunca chega a habitá-lo. Fluência começa no dia em que a pessoa para de perguntar como se diz isso na minha língua e começa a perguntar como se percebe isso neste novo idioma.

Na prática, isso significa dar atenção justamente às distinções que soam estranhas, porque são elas que carregam o recorte novo: os dois tipos de saber que o espanhol separa em saber e conocer, os artigos que o alemão exige, o aspecto verbal que o russo obriga a marcar, o tom que o mandarim usa para diferenciar palavras que aos nossos ouvidos, parecem iguais. Cada uma dessas dificuldades não é um obstáculo arbitrário inventado para atrapalhar; é a porta de entrada de “um recorte de mundo” que a sua língua materna não fazia. Aprendê-las é, literalmente, ampliar o que você consegue perceber. É por isso que quem domina um segundo idioma costuma dizer que passou a ver certas coisas que antes lhe eram invisíveis, e não está sendo poético: está descrevendo, com exatidão, o que aconteceu com a sua percepção.

Fechamento

A promessa secreta de aprender uma língua nunca foi apenas conseguir pedir um café em outro país. É a de sair, ainda que por um momento, do único círculo que até então confundíamos com o mundo inteiro, e descobrir que aquilo que julgávamos ser a realidade era apenas o nosso recorte dela. Humboldt intuiu, Whorf exagerou, e as pesquisas científicas acabaram confirmando a parte sóbria e mais bonita da história: não pensamos apesar da língua, pensamos com ela e através dela, e cada nova língua que se aprende acrescenta uma janela a mais na casa estreita em que, sem saber, morávamos.


  • Wilhelm von Humboldt, “Sobre a Diversidade da Estrutura da Linguagem Humana” (1836);
  • Edward Sapir, “A Linguística como Ciência”; Benjamin Lee Whorf, “Linguagem, Pensamento e Realidade”;
  • Lera Boroditsky, “How Language Shapes the Way We Think”.

Filosofia da Linguagem — projeto Shabbat. Textos para este blog e incentivo à aprendizagem e à aquisição de idiomas de forma ativa.

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