Durante a jornada de aquisição de um novo idioma, os erros são inevitáveis. Afinal, estamos em um processo de construção, de reorganização cognitiva e de imersão em estruturas desconhecidas. Mas embora naturais, os equívocos ainda causam desconforto, especialmente quando ocorrem diante de colegas, professores ou… da pessoa por quem estamos interessados.
Esse desconforto, amplificado pelo estresse social, pode bloquear o aprendizado. Isso não é apenas impressão: estudos em neurociência cognitiva mostram que o estresse em contextos de exposição linguística inibe o desempenho da memória de trabalho e, consequentemente, da aquisição linguística. Ainda assim, a maior barreira não está no erro em si, mas em como o enxergamos.
Uma máxima que sempre compartilho com meus alunos e coachees é:
“Cometa seus erros — e aprenda com eles!”
Quando o erro vira aprendizado: duas histórias reais

Na aquisição de línguas, há tropeços que são engraçados, outros embaraçosos — mas todos têm valor formativo.
Lembro-me de um amigo haitiano, hoje poliglota excepcional, que chegou ao Brasil ainda aprendendo português. Um dia, ele me perguntou:
“Lucas, o que significa ‘xovê’?”
Expliquei que era o verbo “chover”, e ele, intrigado, retrucou:
“Não faz sentido. Dois garotos estavam no metrô e um disse ‘xovê’ enquanto olhava o livro do outro.”
Rimos juntos. A palavra não era o verbo “chover”, mas sim a redução oral de “deixa eu ver” — algo típico do português falado no Brasil, uma espécie de aglutinação sonora. Aquilo foi um choque cultural-linguístico. Um erro de compreensão? Sim. Mas também uma aula sobre entoação, cacofonia e contexto.
Outro caso (e um tanto embaraçoso) foi comigo mesmo. Em um hotel, notei um grupo de jovens judeus e vi ali uma chance de praticar o hebraico que estava aprendendo. Depois de uma abordagem simpática em inglês, soltei:
“אני אוכל את ישראל” Ani okhel et Yisra’el — que eu achava significar “eu amo Israel”.
A moça caiu na risada e se afastou, e eu, paralisado, fiquei sem entender, mas sabia que tinha dito algo errado. Mais tarde, ao relatar a frase a um dos intérpretes da turma, ouvi:
“Entendo. Você quis dizer “אני אוהב את ישראל” Ani ohev et Yisra’el — ‘eu amo Israel’, mas disse ‘eu como Israel’.”
Foi constrangedor? Sim. Mas a lição ficou marcada — e nunca mais confundi okhel com ohev novamente. Embora eu tenha parado com este idioma, não desisti, apenas dei uma pausa estratégica.
Por que errar é tão poderoso?

- Erros revelam onde melhorar
Cada erro aponta uma lacuna cognitiva. Quando erramos, somos forçados a refletir, investigar e buscar alternativas corretas — processo que ativa a memória de longo prazo. - Fortalecem a retenção
A intensa atividade cerebral para “consertar” o erro fortalece a rede neural correspondente. Erros bem trabalhados são mais memoráveis do que acertos automáticos. - Expandem nossa consciência linguística
Através dos equívocos, percebemos aspectos semânticos, fonológicos ou culturais que antes passavam despercebidos. - Aumentam a resiliência e a coragem
Lidar com gafes e seguir em frente ensina o valor da persistência e nos prepara para interações mais autênticas, mesmo diante de falhas. - Tiram você da zona de conforto
A linguagem exige exposição. Se o medo de errar for maior que a vontade de se comunicar, o progresso trava. Mas ao rir de si mesmo e continuar, você avança. - E segundo Merrill Swain, os erros são, inclusive, gatilhos para o desenvolvimento linguístico. Sua Hipótese da Produção sugere que, ao tentar expressar algo e errar, o aprendiz é forçado a prestar atenção à forma da linguagem — refletindo, ajustando e internalizando estruturas novas. O erro, nesse caso, não é um obstáculo, mas uma janela para a consciência linguística (Swain, 1985).
Abrace os micos. Eles são mestres disfarçados.
Aprender um idioma é mais do que conhecer palavras: é viver experiências que desafiam o ego, mexem com a autoestima e exigem humildade.
Portanto, não fuja dos erros. Encare-os como oportunidades de crescimento. Cada “mico” é uma etapa que aproxima você da fluência — com mais consciência, empatia e humanidade.
Errar é humano. Aprender com o erro é uma habilidade. Crescer com ele, é sabedoria.
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